A presença de agrotóxicos nas frutas, legumes e verduras ainda é uma das grandes preocupações dos consumidores em todo o mundo. No Brasil, líder mundial no consumo total de agrotóxicos (embora não ostentemos esse título no uso por tonelada de alimento produzida), nem se fala. Apesar disso, raramente sabemos o que fazer para higienizar os alimentos que consumimos crus, na tentativa de retirar resíduos de agrotóxicos.

De acordo com o engenheiro agronômico Gabriel Vicente Bitencourt de Almeida, a chance de contaminação do interior dos alimentos pelos agrotóxicos é praticamente eliminada ao se retirar as cascas, ou quando eles são cozidos. “Algumas medidas que se adotam para higienização dos alimentos com o objetivo de combater a contaminação por micro-organismos também são úteis para a limpeza dos agrotóxicos ou agroquímicos, como são chamados pela indústria. Lavar bem as frutas, legumes e verduras em água corrente, com esponjas macias e detergente neutro, já promove a limpeza dos resíduos químicos, procedimentos também recomendados para os alimentos orgânicos”.

Deixar os alimentos de molho em água é outra boa prática na cozinha, mas adicionar hipoclorito de sódio, água sanitária sem alvejante ou vinagre não faz muita diferença do ponto de vista da limpeza de resíduos químicos. “Lembrando que a adição de hipoclorito é sempre recomendável para evitar a contaminação microbiológica”, diz. Segundo ele, utilizar água quente para o molho ou a lavagem também não faz diferença no que diz respeito aos agrotóxicos, e pode ainda estragar o alimento.

Bicarbonato e maçãs – Uma recente pesquisa da Universidade de Massachusetts (EUA), publicada no Journal of Agricultural and Food Chemistry, comprovou também o potencial do bicarbonato de sódio como aliado dos consumidores na lavagem dos alimentos. No estudo, cientistas compararam o uso de água de torneira com o de uma solução aquosa que contém bicarbonato na lavagem de maçãs. Com 10 miligramas de bicarbonato dissolvido por mililitro de água, conseguiram remover resíduos de dois tipos de agrotóxicos da superfície da fruta: o tiabendazol e o phosmet, aos quais as maçãs ficaram expostas previamente durante 24 horas. Contudo, não houve a mesma ação para a limpeza total da fruta, já que ela ainda continha pesticidas internamente depois do procedimento de lavagem, segundo a pesquisa. Além disso, o estudo só trabalhou com maçãs, não sendo automática a transferência desse resultado para outros tipos de frutas ou alimentos, e não avaliou outros tipos de agrotóxicos.

Almeida defende como medida que daria mais segurança aos consumidores a adoção de protocolos e certificações de boas práticas por parte dos produtores e comerciantes brasileiros, como ocorre em países mais desenvolvidos, a exemplo dos Estados Unidos e Reino Unido. Há protocolos internacionais, como o Global G.A.P. e o Rainforest Alliance, por exemplo, que certificam a adoção dessas boas práticas e são exigidos por supermercados desses países. No Brasil, algumas redes também já estão exigindo a certificação das boas práticas, como forma de garantir a segurança alimentar de seus clientes.

Agrotóxicos no Brasil – Uma pesquisa feita pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e divulgada no final de 2016 indicou que quase 99% das 12.051 amostras de alimentos analisadas entre o período de 2013 e 2015 estavam livres de resíduos de agrotóxicos que representam risco agudo para a saúde, aquele relacionado às intoxicações que podem ocorrer em um período de 24 horas após o consumo do alimento que contenha resíduo.

A Anvisa avaliou cereais, leguminosas, frutas, hortaliças e raízes, totalizando 25 tipos de alimentos. O critério de escolha foi o fato de que estes itens representam mais de 70% dos alimentos de origem vegetal consumidos pela população brasileira. No documento consta um alerta para a presença do agrotóxico carbofurano, encontrado em 11% das amostras de laranja, e para o carbendazim, que foi encontrado em 5% das amostras de abacaxi.

“No caso da laranja, por exemplo, os produtores do Estado de São Paulo já adotam o processo de lavagem dos frutos antes do envio aos pontos de venda, eliminando esse risco para o consumidor”, comenta Almeida. Em estudos anteriores, lembra, a Anvisa já detectou altas concentrações de agrotóxicos em pimentões, pois seu formato é propício para armazenagem desses compostos.